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Atualizado em 25/fev/2011


Literatura infantil

É possível afirmar que o folclore tenha sido a primeira produção cultural em que sejam localizadas narrativas que despertaram o interesse das crianças e, nesse aspecto, tenha sido ele o fundador da literatura infantil. Porém, embora as crianças fizessem parte do rol de ouvintes atingidos pelas narrativas do folclore, não eram elas o seu alvo primordial.

É durante o Romantismo com o seu zelo em salvar do esquecimento as produções populares ameaçadas pelo modo de vida moderno que podemos observar um novo direcionamento dado aos materiais de origem popular. Os contos de fadas, cantigas e lendas recolhidos e impressos passaram a ser um material cada vez mais identificado com o leitor infantil. Em função desse novo leitor, os conteúdos considerados impróprios foram banidos ou serenados: primeiro por Perrault e posteriormente pelos irmãos Grimn, na adaptação que a maior parte de nós conheceu, a preocupação recaia sobre as mensagens de obediência e advertência em relação aos perigos da vida.

Evidentemente não se pode conceber esse processo de pedagogização a que o folclore foi submetido quando pensado para o leitor infantil se não pensarmos na própria emergência da infância como categoria social. Sabe-se que historicamente o reconhecimento da infância só aconteceu no século XVIII, quando as crianças deixaram de ser vistas como adultos em miniatura e passaram a ser percebidas e respeitadas como seres em fase de desenvolvimento. Além disso, a ascensão da família burguesa e a reorganização da escola, fatos pertinentes ao mesmo século, colaboraram com o novo enfoque na formação infantil. Por um lado, a criança se tornou o centro das preocupações da célula familiar, o que se contrapôs ao amplo e difuso modelo de família patriarcal; por outro lado, a necessidade de socializar as crianças, preparando-as para exercer as funções produtivas do mundo adulto, deu à escola um caráter universal na sociedade burguesa.

Paralelamente a essas transformações no âmbito social, também o modo de produção da literatura sofreu alterações. Zilberman e Magalhães salientam que as mudanças na estrutura da sociedade desencadearam repercussões no âmbito artístico que persistem até os dias atuais. Assim entraram em decadência os gêneros clássicos, como a tragédia e a epopéia, ascendendo em seu lugar o drama, o melodrama e o romance, voltados à manifestação de eventos da vida burguesa e cotidiana, deixando de lado os assuntos mitológicos e as personagens aristocráticas (p.3)1.

Dentro dessa reconfiguração ativada pelo Romantismo, também a literatura infantil começa a surgir como gênero autônomo. A partir do momento em que ficou confirmada a necessidade de uma literatura adequada à criança, uma nova discussão foi estabelecida para definir o seu conceito e finalidade. Foi a perspectiva utilitária que presidiu essa discussão, conferindo a esse gênero literário a função, sobretudo, de educar pela transmissão de valores morais e/ou informativos. Por essa ótica pedagógica, a dimensão da imaginação era compreendida como domínio da ilusão, do sonho, da mentira ou de anseios absurdos, domínio do qual devemos nos afastar no intuito de nos acercarmos de uma compreensão prática do homem e do mundo. Pode-se dizer que a literatura infantil tinha a tarefa de domar as forças imprevisíveis do imaginário infantil, oferecendo em troca verdades morais que preparavam a criança para atuar como adulto responsável na sociedade burguesa. A concepção de arte segundo Coelho, como “uma manifestação do espírito humano, como algo que fala da necessidade de ilusão, sonho, fantasia, aventura, idéias, presenças que vão além das limitações da vida concreta” (p. 24)2, ao longo do século XIX, foi exilada em prol de uma concepção predominantemente moral na literatura infantil. Desse modo, o texto apresentava-se como o lugar de um sentido inquestionável (as fábulas com suas máximas morais servem como ilustração disso).

Hoje, a literatura infantil se tornou um grande nicho comercial, habilmente identificado pelas editoras. No entanto, incluem-se entre essas publicações livros sustentados por ilustrações coloridas, de capa dura e por vezes até com figuras em terceira dimensão, ou acompanhadas de CDs musicais. Um material largamente divulgado pelas editoras, nas escolas, mas nem sempre com algum valor literário, pois em meio a essa ampla produção muitas obras ainda trazem consigo deficiências advindas de uma concepção de literatura infantil construída nos séculos XVIII e XIX, valorizadora da visão do adulto e compreendendo a criança como um ser em devir que cumpre preparar para a perpetuação do status quo.

Todavia, a face mais salutar do processo de difusão do gênero foi sua emancipação relativa à preocupação utilitária do Estado burguês, pois houve uma ocupação do campo da literatura infantil por escritores que potencializaram o gênero.  A fantasia foi reinvestida de grande importância na organização do psiquismo infantil e da construção da sociabilidade, possibilitando a expressão de angústias, a vivência de situações de opressão e do sentimento utópico de sua superação. Para isso, argumentou-se que a criança tem necessidade de imaginar e ir além daquilo que as histórias narram. Faz parte do seu mundo a possibilidade mágica do “faz-de-conta”, a sensibilidade despertada pelas ações dos heróis ou dos vilões, as possibilidades de solucionar os problemas vivificados pelas personagens que demandam das justiças ou injustiças assim como um trabalho com os próprios sentimentos. Jaqueline Held enfatiza que a criança para se desenvolver de maneira equilibrada, harmoniosa, tem necessidade do sonho, do imaginário (...) e quando a imaginação humana não é alimentada de maneira válida, ela se subverte e procura em compensação formas de substituição deploráveis, aviltantes e degradantes. (p.13)3.

Concomitante à valorização dos elementos imaginários no texto para crianças, também a discussão acerca da relação entre este e o seu destinatário pôs em questão o uso pedagógico da literatura infantil em detrimento do seu uso estético. Na esteira dos estudos sobre o leitor literário empreendidos pela Semiótica e a Estética da Recepção, a dimensão de significação plural do texto literário questionou o uso moralizante, de interpretação autoritária que concepções educativas impuseram. Falando sobre a importância da fantasia, Held não nos deixa de apontar também para essa dimensão: “a narração fantástica convida, em suma, mais que qualquer outra, a uma leitura aberta ou mesmo a leituras sucessivas e múltiplas” (p.14)3.

Compreender o texto literário nessa perspectiva aberta, em que há necessidade de intervenção do leitor para que os sentidos sejam preenchidos, é a tarefa que a educação formal, segundo Zilberman4, deveria realizar. Isso significa a substituição de um modelo educativo que há muito e ainda hoje toma o texto como pretexto para o exercício da literatura pedagógica por outro, o qual concebe como tarefa da escola a pedagogia literária. Nessa ótica, o texto necessariamente se constitui com a contribuição do leitor, porque ele é feito de lacunas, de implícitos, subentendidos que a experiência do leitor vem ocupar.

Talvez seja esse caráter dialógico da literatura em geral a chave de um encantamento que algumas obras exercem sobre as pessoas, ultrapassando o tempo e acompanhando a formação de tantas gerações. Infelizmente, seja por pressão do mercado ou de deficiências da formação de professores, o uso pedagógico da literatura tem ainda força em prejuízo da pedagogia da literatura, capaz esta de formar para a compreensão dos problemas estéticos e sua relação com a história e a vida social dos homens.

(Colaboração de Ana Lúcia Zugno, mestranda em Educação pela UNESC)

 

Leia resenhas de livros de literatura infantil

 

 

1 MAGALHÃES, Ligia; ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil: Autoritarismo e Emancipação. São Paulo: Ática, 1984.

2 COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Infantil. São Paulo: Quiron/Global, 1982.

3 HELD, Jaqueline.O Imaginário no Poder. São Paulo: Summus Editorial, 1980.

4 ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 1988.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira. São Paulo: Ática, 1985.



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